Sexta, 10 de Setembro de 2010
Twitter da  Revista Comunhão
LiveZilla Live Help
   
Fonte

Entrevista

Pr. Oscar Domingos de Moura

_mg_4810


Muitos pregadores só estão pregando prosperidade material, esquecendo-se de que o Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crer

Eleito pela segunda vez para a Presidência da Convenção das Assembleias de Deus do Estado do Espírito Santo e Outras (Cadeeso) no último dia 10 de janeiro, cargo que ocupará até 2012, o pastor Oscar Domingos de Moura conversou com os jornalistas da revista Comunhão sobre as responsabilidades inerentes a essa função, os rumos da maior denominação evangélica do Estado e as mudanças que ele tem observado no protestantismo ao longo de suas mais de quatro décadas de conversão.

Pastor Oscar é um exemplo inspirador para muitas lideranças, não apenas evangélicas, o que ficou bastante claro no dia de sua reeleição, prestigiada por vários líderes eclesiásticos e por políticos de diferentes matizes, como o prefeito de Vitória, João Coser, o de Vila Velha, Neucimar Fraga, e o vice-governador Ricardo Ferraço - a quem, em nome da denominação, pastor Oscar declarou seu apoio nas próximas eleições estaduais, em outubro. Confira, a seguir, a íntegra da entrevista.

A que o senhor atribui estar novamente na liderança de uma denominação tão grande?
Eu atribuo a Deus, que me escolheu para fazer esta tão grande obra, pois se não for por Deus, homem algum tem condições de aguentar o peso de tão grande responsabilidade.

_mg_4811Na Convenção Estadual realizada no dia 18 último era evidente a presença de políticos capixabas. O senhor considera isso bom ou ruim?
Eu atribuo isso ao bom relacionamento que temos com o Governo do Estado, prefeitos e deputados, tanto estaduais quanto federais, e vereadores, pois entendemos que eles foram constituídos por Deus para governar sobre nós, conforme está escrito na Palavra de Deus, em Romanos 13.1, que diz: "Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as autoridades que há foram ordenadas por Deus". Para a Cadeeso, é uma honra receber autoridades não somente políticas, mais de toda área de atuação, a exemplo do Judiciário e eclesiásticas, pois isto mostra que somos queridos e respeitados como uma instituição séria, que tem contribuído para o crescimento do nosso Estado.

Neste mesmo evento, o senhor manifestou o apoio da Assembleia de Deus à pré-candidatura de Ricardo Ferraço. O senhor confirma esse apoio? O que os assembleianos esperam de um possível governo de Ferraço?
Sim, confirmo, porque Ricardo Ferraço, se eleito, vai sem dúvida colocar em prática sua experiência, que adquiriu com o governador Paulo Hartung, que tem realizado um bom governo no nosso Estado. Por isso é que os pastores da Cadeeso manifestaram o apoio a Ricardo Ferraço, pois ele é o candidato do governador.

Como analisa a atuação dos parlamentares evangélicos do Espírito Santo, nos três níveis - estadual, municipal e federal? O que destacaria como sendo a maior contribuição deles, até o momento, para a sociedade capixaba?
Os nossos representantes têm defendido os interesses da sociedade de um modo geral, pois foram eleitos para isso. E também, quando surgem matérias que venham contra os interesses da Igreja, eles têm se posicionado como defensores do nosso povo. Quanto a outros projetos, eles não têm conseguido muita coisa porque são minoria, e na hora da votação seus projetos são rejeitados. Precisamos eleger mais representantes, tanto na área municipal, quanto estadual e federal, para poderem defender os interesses da Igreja.

O senhor tem uma experiência variada no dia a dia das igrejas, nas mais diferentes funções (como diácono, como professor de escola dominical, como pastor), e uma importante vivência como liderança na Cadeeso. Em sua opinião, qual dos dois contextos requer maiores habilidades para desempenhar-se a contento?
Sem dúvida alguma, ser presidente da Cadeeso, pois estamos lidando com pastores e evangelistas, que também são lideres nas igrejas. O presidente de Convenção é pastor de pastores e tem que dar assistência aos pastores e igrejas de todo o Estado, bem como em outros estados a ela filiados.

Este ano o senhor completa 43 anos de conversão. Qual a avaliação que faz do protestantismo no Espírito Santo nessas quatro décadas? O que o senhor acha que mudou e por quê?
Percebo que no decorrer destes anos muitas igrejas mudaram a liturgia dos cultos na área musical, na pregação da Palavra de Deus e nos costumes da vida cristã. Por exemplo, na denominação que estou representando, a Assembleia de Deus, sinto falta dos corais, bandas de música e em muitas igrejas abandonaram o uso da Harpa Cristã, dando lugar a louvores avulsos, que não representam a história da nossa denominação. Também podemos observar que o tempo da ministração da Palavra de Deus está ficando resumido e muitos pregadores só estão pregando prosperidade material, esquecendo-se de que o Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crer.

Como o senhor analisa a participação da Igreja, hoje, nas principais questões que afetam a sociedade - como o aumento do consumo de drogas, da violência doméstica e contra as crianças, do tempo gasto com internet e TV, das desigualdades sociais etc.?
A Igreja está cumprindo com a sua missão, procurando sempre alcançar o seu objetivo, que é a recuperação da pessoa que esta perdida, tendo feito um trabalho de evangelização constante para resgate de pessoas que estão nesta situação de drogados.
Quanto à questão da violência doméstica, quando acontecem casos deste teor na nossa igreja, são tomadas as devidas providências contra o infrator; porém, quando acontece com pessoas que não são da Igreja, fica mais difícil, pois é um tipo de violência que acontece entre quatro paredes e a vítima muitas vezes não tem coragem de delatar o infrator.
Sobre a internet, é o grande mal atual, pois nela estão expostos sexo explícito, downloads de jogos de teor maligno para as nossas crianças, adolescentes e jovens, sendo que a televisão ficou ultrapassada em relação à internet.
Sobre as desigualdades sociais, o mundo, de um modo geral, está sofrendo com esta situação, porém na igreja, quando observamos a necessidade de um irmão, seja de qualquer classe social, procuramos estender a mão para ajudar naquilo que for possível. Podemos citar a passagem do salmista Davi, que diz: "Nunca vi um justo desamparado, e nem a sua descendência mendigar o pão" (Salmo 37.25).

O que o senhor acha do número cada vez maior de pastores que saem das igrejas e fundam suas próprias igrejas por discordância da doutrina? Como sua igreja consegue se manter fiel à doutrina e não perder membros?
Quando o pastor sai de uma igreja porque não concorda com ensinamentos errados, neste caso ele está certo, pois não podem andar juntos se não há acordo, conforme Amós 3.3, que diz: "Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?".
Se o pastor abandona a igreja porque ela está ensinando a sã doutrina e abre outra igreja, ele está em rebelião contra a Palavra de Deus - e, neste caso, ele está errado.
Com relação à igreja que pastoreio, tenho mantido os padrões bíblicos de ensino da Palavra de Deus, não me preocupando em perder membros. Somente me preocupo em ensinar a Palavra de Deus com verdade, pois a doutrina não esvazia a igreja; o que esvazia a igreja é o pecado, e os que amam a verdade não saem da igreja, pelo contrário; eles gostam da Igreja.

O senhor foi jogador profissional de futebol por muito tempo. Acredita que o esporte deveria ser mais bem aproveitado pela Igreja como instrumento de evangelização?
Um esportista pode ser um crente, porém um crente não pode ser esportista, pois, de acordo com a minha experiência de esportista, o meu tempo era todo tomado pelo futebol, não sobrando tempo para a obra de Deus; porém o homem que foi chamado por Deus não pode se embaraçar com os negócios desta vida, a fim de agradar aquele que o alistou para a guerra (2º Timóteo 2.4).

O senhor se batizou nas águas do rio Bubu, em Cariacica. Isso, hoje, seria impraticável. Como o senhor analisa a atuação da Igreja frente à necessidade urgente de preservação ambiental?
Este problema não é somente da Igreja. É um caso de esforço de todas as áreas da sociedade, já que se a humanidade não se posicionar a este respeito, o mundo ficará difícil de se viver, pois estão devastando as florestas, poluindo os rios e mares, a camada de ozônio está se desfazendo e o calor a cada dia está maior. Tudo isto é fruto da ignorância e brutalidade do homem.

A AD tem hoje milhares de membros no ES, e cresce com vigor. Quais os planos da denominação no ES? E os seus planos, à frente da Cadeeso?
Eu não tenho planos e, sim, propósitos. Estou pedindo a Deus que nos dê um terreno para que possamos construir um Centro de Convenção para a realização de nossos Congressos e também nossas Reuniões Convencionais (AGO), pois até o momento estamos realizando estes eventos em ginásios de esportes e campos de futebol, o que não acho bom. Se Deus quiser, nós alcançaremos esta grande vitória. Termino aqui dizendo que "se Deus é por nós, quem será contra nós?" e "até aqui nos ajudou o Senhor".

 

 

Marília de Camargo

marilia2


"Feridos em nome de Deus"

O livro da jornalista Marília de Camargo César investiga as raízes do abuso espiritual.

Ela queria ser psiquiatra, mas Deus tinha outros planos para sua vida. Questionadora, curiosa, o gosto pela leitura e a grande facilidade para escrever, aliados à permanente vontade de entender a complexidade dos atos e fatos da existência humana, acabaram levando-a ao Jornalismo, onde fez uma brilhante carreira - após anos de serviços prestados ao jornal Gazeta Mercantil, desde 2000 ela integra a equipe do jornal econômico Valor, onde hoje é editora de suplementos especiais.

Os traços de sua personalidade e a escolha profissional lhe forneceram um caminho natural para enfrentar uma das situações mais difíceis que já viveu: após uma década congregando em uma igreja que parecia perfeita, ela testemunhou a repentina desagregação daquela comunidade evangélica e o linchamento moral de seu pastor. Atônita, ouviu cada irmão, buscando compreender como, da noite para o dia, tamanha tragédia se abatera sobre aquele grupo. Sua busca resultou no comovente ‘Feridos em Nome de Deus' (Mundo Cristão, 2009), primeiro livro de Marília de Camargo César.

Na obra, lançada em junho, a jornalista, membro da Igreja Batista de Água Branca, do pastor Ed René Kivitz, aborda um fenômeno cada vez mais freqüente nas igrejas atuais, que ela conceituou como ‘abuso espiritual' - situações em que líderes e liderados se envolvem sem perceber e que resultam em grande destruição emocional, moral e, por vezes, até mesmo material. Marília reuniu relatos reais de pessoas que tiveram suas vidas vitimadas por abuso espiritual - como abusados ou como abusadores - e, com a ajuda de renomados teólogos, pastores e outros especialistas, desvenda as raízes desse problema, que pode transformar a igreja de hospital em câmara de torturas. Acompanhe.

Seu livro esclarece o conceito de 'abuso espiritual' e ensina aos leitores como perceber se estão envolvidos nesse tipo de situação. Por que você escolheu esse tema?
Estava em busca de respostas. Fui membro de uma igreja durante dez anos, uma igreja interdenominacional, avivada, e ali construí muitas amizades e relacionamentos. De um dia para o outro, surgiram denúncias de abuso de autoridade contra um dos pastores. Muitos que andavam bem próximos dele passaram a acusá-lo de manipulação, abuso financeiro e daquilo que denominei abuso espiritual. No começo ficamos atônitos, sem saber o que estava acontecendo, as razões daquela divisão. Então, o instinto de repórter falou mais alto e eu fui investigar o que tinha dado errado. O livro nasceu assim.

Quais são as formas e as causas mais comuns de abuso espiritual?
O abuso financeiro é o mais óbvio - o líder usa a Bíblia para legitimar o autofavorecimento: abençoe o profeta do Senhor e você será abençoado, dizem essas figuras. A ovelha vê aquilo escrito na Bíblia e acredita que terá mesmo recompensa por favorecer um servo do Senhor. O assédio emocional e espiritual muitas vezes é mais sutil. O pastor humilha o fiel diante da congregação, tratando-o como um rebelde insubmisso apenas porque ele ousou questionar um pensamento, e depois, a sós, o pastor diz pra ele que fez isso por "zelo", porque ele precisava aprender a se submeter à autoridade pastoral. Isso ouvi não uma ou duas, mas muitas vezes. O livro relata outras formas sutis de manipulação, todas igualmente devastadoras para quem está do outro lado do púlpito.

No livro, você fala sobre dois cenários, quase opostos, que os evangélicos normalmente encontram: uma igreja e culto tradicionais, "mornos" e com reduzido poder de atração, ou uma igreja e cultos mais emocionais e mais atraentes - onde, no entanto, o rebanho corre um risco maior de atribuir poder demais à figura do pastor. Existiria uma terceira via, mais equilibrada?
Certamente deve haver uma terceira via, e uma quarta e uma quinta. Há igrejas para todos os estilos de pessoas, creio eu. O problema, como escreve Osmar Ludovico em "Meditatio", é quando as pessoas se tornam seletivas, ficam fazendo test drive com igrejas e passam a achar que não existe nenhuma à altura de sua espiritualidade, ficam procurando os defeitos e se tornam, assim, soberbas. Ora, igreja perfeita só quando a Noiva estiver pronta e adornada, ao lado do Noivo, glorificada. Isso é para depois. Aqui, sempre teremos que conviver com os defeitos de nossas comunidades e pastores. Acho que precisamos procurar um ambiente onde nos sintamos bem, onde sejamos estimulados a pensar, a questionar, e onde nossos defeitos combinem melhor com os defeitos da comunidade e da liderança (risos).

De uma forma ou outra, o dinheiro está presente na base da maioria dos conflitos narrados no livro. A que atribui isso?
Muitas pessoas que são abençoadas pelo pastor ou líder querem retribuir com presentes a atenção, o carinho, as orações ministradas. É natural. O problema é quando isso passa dos limites e quando o líder começa a se ver como merecedor desses agrados, passando até a pedi-los - e isso acontece com alguma frequência. Se sou jornalista ou balconista, o presente que poderei dar a meu pastor será talvez um livro, uma camisa. Mas e se eu for um grande empresário, uma celebridade? Vou querer abençoá-lo com um carro, uma casa nova. Isso acontece, na prática, e as igrejas não estão prontas para lidar com esse tipo de situação. Eu sugiro no livro que os estatutos das igrejas contemplem um código de ética que defina um valor para esses presentes, como fazem algumas empresas. Seria um jeito de proteger o próprio pastor de uma situação que pode resultar, eventualmente, em constrangimento.

Você mostra que a necessidade de seguir um líder, com medo da responsabilidade trazida pelo livre arbítrio, fragiliza o crente diante de uma liderança espiritual abusiva. Fale um pouco mais sobre isso.
É muito mais fácil ter um guru, um pastor-consultor para assuntos diversos, que lhe diz sempre o que você tem que fazer, do que gastar tempo de joelhos, lendo a Bíblia, se aquietando - nossa!, como dá trabalho ter que se aquietar diante de Deus, eu diria que é uma das coisas mais difíceis nesta vida louca que levamos hoje. As pessoas adoram respostas prontas, soluções tipo fast food, "liga pro pastor, pergunta se deve ou não deve" e o pastor diz: deve, e você vai lá e faz. Se der errado, a culpa é do pastor, claro, e não da sua própria imaturidade. Isso está acontecendo demais nas igrejas, o rebanho imaturo perguntando ao pastor sobre os detalhes de suas resoluções cotidianas e os pastores adorando assumir esse papel de manda-chuva. Isso é um terreno fértil para a ocorrência de abuso, infelizmente.

Entre os aspectos que podem facilitar que o crente seja vítima do abuso espiritual você aponta a educação autoritária. No entanto, há décadas que a educação vem-se liberalizando, ao ponto de, hoje, muitos atribuírem alguns dos graves problemas que a sociedade vem enfrentando à falta de limites dados pelos pais às crianças e jovens - ou seja, uma postura cria abusados e a outra, abusadores. Como ultrapassar essas duas posições?
Tenho duas filhas pequenas e entendo que amor e firmeza trazem muita segurança para a vida delas; muito amor e muita firmeza. Quando se tem convicções, é necessário transmiti-las aos filhos, mas com muito amor. Não significa omissão e indisciplina. Minhas filhas sabem, pelo meu tom de voz, quando "pisaram na bola", e em alguns momentos, tirar algo que seja importante para elas é uma lição mais dura que uma "varada". A educação autoritária, violenta, que não permite questionamento, onde a criança tem medo de se expressar, ajuda, sim, a criar indivíduos mais tolerantes ao abuso na vida adulta. Esta é a opinião dos profissionais da mente e um traço comum nas histórias que narro no livro.

Você acha que o propósito para o qual escreveu o livro foi ou está sendo alcançado?
Creio que os resultados superam todas as expectativas, muitas pessoas escrevem contando como puderam fazer uma autoanálise depois de ler o livro e entender onde elas também falharam no relacionamento com o líder. Entendem que foram ingênuas, que transferiram responsabilidades ou que simplesmente se meteram com as pessoas erradas, o que acontece. A maioria dos que escrevem no blog do livro (www.feridosemnomededeus.com.br) afirma ter sido ajudada pelos relatos e análises, e isso é uma grande recompensa para o meu trabalho. Agradeço demais a Deus por estar usando essa obra para curar tantos corações partidos e restabelecer a fé de muitos.

Qual a mensagem que gostaria de deixar para os leitores de Comunhão?
Sempre costumo enfatizar que só existe um Pastor perfeito, aquele que sofre conosco quando estamos sofrendo as dores e as feridas feitas por pastores imperfeitos - todos os demais. Nada no mundo pode nos separar desse amor. Sei que cada um tem um tempo para recuperar-se das feridas causadas pela igreja, pelo legalismo, pelo farisaísmo. Mas oro para que as pessoas não percam o tempo certo de voltar aos braços do Senhor. Agradeço a revista pelo interesse no livro e que vocês possam sempre ajudar a divulgar o ministério da reconciliação, que é dado a todos os cristãos.

 

Flordelis

entrevista-com-a-flor-de-liz-2


"Existem dois tipos de mãe: a biológica e a do coração. Mas para mim, mãe é aquela que se doa. Esse é o sentido do amor verdadeiro."

Uma jovem carioca que, com poucos recursos, se dedicou a cuidar de crianças e adolescentes em situação de risco social. Essa é a história da professora Flordelis, mãe de 50 filhos, quatro biológicos e 46 adotivos, que chamou a atenção do Brasil. A missionária enfrentou muitas privações e obstáculos, teve contato com chefes do tráfico de drogas e foi perseguida pela polícia ao defender os filhos. Agora, é a primeira evangélica, no mundo, a ter a sua história contada em filme. O documentário "Flordelis - Basta Uma Palavra Para Mudar", lançado no mês de outubro, é uma coletânea de depoimentos emocionantes dessa trajetória de amor e fé. No elenco, a missionária encena o seu próprio papel e mais de 20 atores renomados da dramaturgia brasileira dão vida aos demais personagens. Em entrevista exclusiva para a Revista Comunhão, Flordelis conta como teve forças para seguir em frente nos momentos mais difíceis de sua missão e como é, atualmente, a sua vida em família.

Comunhão: Como foi a sua infância?
Flordelis: Nasci e me criei em uma favela chamada Jacarezinho, no subúrbio do Rio de Janeiro. Desde pequena, tive contato com a triste realidade das crianças que são criadas pela vida, filhas de pais que precisavam trabalhar fora e não tinham tempo de dar os devidos cuidados à família. Essas crianças ficavam largadas pelos becos onde moravam e tinham contato com todos os tipos de violência.

O que te despertou a realizar um trabalho com crianças dependentes de drogas e vítimas da violência urbana?
Percebi que poderia agregar mais ao evangelismo, ampliando a minha missão para alcançar muitas pessoas que precisavam de amparo e cuidados especiais. Por causa disso criei o "Evangelismo da Madrugada", que faço todas as sextas-feiras. Saio de casa à meia-noite e me dirijo aos bailes funks e a outros locais da cidade para falar de Jesus.

Como você iniciou a missão?
Depois do Carnaval do ano de 1994, aconteceu uma chacina na Central do Brasil provocada por um grupo de extermínio. Muitas crianças morreram e 37 escaparam e me pediram ajuda. Na época, era professora e já tinha acolhido cinco adolescentes que tinham saído do mundo do tráfico. Mesmo assim, não pensei duas vezes, recebi todos eles em minha humilde casa. Mas não foi fácil. Cheguei a ter que conversar com chefes do tráfico de drogas e fui perseguida pela polícia.

A Bíblia diz: "Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele" (Pv. 22:6). Como é ter a responsabilidade de cuidar de tantos filhos em um mundo tão corrompido como o dos dias atuais? Apesar da triste história de vida dos meus filhos, atualmente é bem mais fácil lidar com eles. Passamos muitos momentos difíceis juntos e isso fortaleceu a nossa família. Eles não são perfeitos, mas cumprem o mandamento do Senhor, me honram e obedecem em tudo, evitando qualquer tipo de falha para não me magoar e também para não desagradar a Deus.

O que te levou acreditar que daria conta de cuidar de todos os seus filhos, adotivos e biológicos? Não escolhi ser mãe de tantos filhos, simplesmente aconteceu! Quando percebi estavam todos eles na minha frente, dependentes de mim. Não foi planejado. Certa vez, a psicóloga do juizado de menores me disse: "Flor, não foi você que os adotou, eles que te adotaram". Concordo com ela.

Há amor para todos eles em seu coração?
Com certeza! Eles são a razão da minha vida e não consigo me imaginar sem a companhia de cada um deles. Porém, não deixo de corrigi-los quando é necessário. Conheço a manha de cada um, do mais novo ao mais velho.

Você acredita que o que aconteceu na sua vida foi um propósito de Deus para superar os traumas do passado?
Sim. Só posso entender o que aconteceu em minha vida como um propósito de Deus. Foi tudo muito rápido. Vieram 14 bebês de uma vez e outras crianças ainda muito pequenas e os demais já eram jovens e adolescentes. O passado já superado vem na lembrança quando sento com os meus filhos e conto as suas histórias de vida. Todos eles têm consciência de suas origens e, nos dias de hoje, servem de exemplo de superação para os amigos.

Alguma vez você chegou a pensar que fosse ser derrotada nessa missão? Dizer que nunca me senti fraca seria uma mentira, mas derrotada jamais! Sempre achei que tudo ia dar certo, porque Deus estava no comando. Sabia que não iria perder os meus filhos.

Para você, o que é ser mãe? Qual o sentido do amor verdadeiro? Existem dois tipos de mãe: a biológica e a do coração. Mas para mim, mãe é aquela que se doa. Esse é o sentido do amor verdadeiro.

Deus, por meio de sua Palavra, nos deixou um conselho: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mt. 22:39). Como é possível se doar a alguém sem sequer conhecê-lo e ter garantias de receber algo em troca? Esse foi o grande problema que enfrentei com a minha família, pois meus parentes não entendiam o amor incondicional que me levava a cuidar das crianças. Eles achavam que eu estava jogando fora a minha juventude e que todo o meu esforço não daria em nada. Porém, não esmoreci. Cada um dos meus filhos precisava apenas de uma palavra de amor. Dei essa oportunidade a eles.

Segundo a Palavra, "a mulher sábia edifica o seu lar, mas a insensata o derruba com as próprias mãos" (Pv. 14:1). Como é o seu relacionamento com os seus filhos e esposo? Encontro em Deus sabedoria para conduzir o meu lar da melhor forma possível e, em casa, todos colaboram cumprindo suas tarefas para que tudo fique em harmonia, como deve ser um lar firmado no Senhor.

Você enfrentou muitas dificuldades para continuar no propósito de cuidar dos seus filhos. De onde você tirou forças e determinação para vencer tantos empecilhos? Na fé em Deus e no relacionamento com o meu esposo, o pastor Anderson do Carmo, que sempre me apoiou.

De início, você não tinha recursos financeiros para cuidar dos seus filhos. Vocês chegaram a passar privações? Sim, passamos por muitas privações. Algumas vezes não sabíamos nem o que teríamos para comer no dia seguinte, mas Deus sempre providenciava algo. Também encontrei pessoas como Herbert de Souza, o Betinho, que me apoiaram e ajudaram.

Você ainda acolhe crianças em situação de risco em sua casa? A minha casa não comporta, mas continuo indo às favelas para atender jovens, adolescentes e crianças e, também, sou muito procurada por eles. Atualmente, tenho o Instituto Flordelis de Apoio ao Menor, onde essas crianças são ocupadas durante o dia com aulas de música, artesanato, entre outras atividades.

Qual recompensa você espera ter por esse trabalho? Espero ver os meus filhos continuando a minha história e incentivar outras pessoas a se levantem para fazer algo a mais. Para ajudarmos ao próximo não precisamos ser ricos de bens materiais. O que temos a fazer é parar de criticar e reclamar do mundo, e agir. Precisamos fazer a nossa parte.

Em um país de tantos exemplos negativos, corrupção e violência, você espera ser um exemplo de paz e amor para aos brasileiros? Espero somente fazer a minha parte e procurar ajudar a quem não teve uma oportunidade na vida e acaba sendo vitima da violência que nos rodeia.

Com o seu exemplo, você espera incentivar outras pessoas a serem solidárias? Sim, com certeza, pois ser mãe é a melhor coisa do mundo!

Você acredita que atitudes como a sua podem ajudar a minimizar a desigualdade social no País? Acredito que somente com um conjunto de ações vindas dos governantes e, também, dos cidadãos brasileiros a desigualdade social no País poderá ser reduzida.

De onde surgiu a ideia do filme "Flordelis - Basta Uma Palavra Para Mudar"? O produtor, até então editor de moda, Marco Antônio Ferraz assistiu a uma entrevista minha em um programa de TV e teve a ideia de registrar minha história em filme. Achei interessante e aceitei o desfio. O documentário, produzido em preto e branco, traz passagens marcantes da minha vida com meus filhos, partes da difícil luta que enfrentei para chegar até aqui.

Qual mensagem você espera transmitir com o filme? O filme "Flordelis" também será exibido fora do País. Com isso, espero plantar a semente do otimismo em muitos corações. Se as pessoas acreditaram, até o fim, no que fazem com certeza dará certo. Sou um exemplo disso, jamais desisti e passaria por tudo novamente. O documentário não é uma vitória só minha, mas de todo o povo de Deus. Sou a primeira evangélica com uma história no cinema mundial. Essa produção é uma fonte de evangelismo e toda a sua trilha sonora é gospel.

O que você deixa como conselho àquelas pessoas que estão enfrentando adversidades na vida sem poder ver a saída de seus problemas? Creia e se apegue em Jesus, pois Ele é a saída para todos os problemas. Mas faça a sua parte também, colabore para a vitória.

   

R.R. Soares

abertura-rr-soares-copy

O Espírito Santo se prepara para receber, entre os dias 11 e 15 do próximo mês, a visita de um filho que, embora ilustre, nem todos sabem que nasceu na pequena cidade de Muniz Freire, no Sul do Espírito Santo, em 6 de dezembro de 1947. Em agosto, Romildo Ribeiro Soares, nacionalmente conhecido como R.R. Soares, estará entre os capixabas pregando a Palavra de Deus em mais uma etapa da gigantesca campanha missionária 40 Anos de Poder, que já percorreu centenas de cidades nas mais distantes regiões brasileiras (confira na coluna Roteiro a programação completa da campanha no Estado).

O homem que há 32 anos ocupa o maior tempo da TV brasileira com a pregação do Evangelho de Cristo iniciou o principal ministério de tele evangelismo do País de modo singelo - uma história que começou no Espírito Santo, com um sonho de criança.

Aos oito anos de idade, em Cachoeiro de Itapemirim (ES), Romildo viu pela primeira vez em sua vida um aparelho de TV, exposto numa loja na Praça Jerônimo Monteiro. Logo notou a fascinação de todos pelo que acontecia na tela, e em pensamento disse que, se Deus lhe desse condições, um dia pregaria através da TV.

Em abril de 1964, Romildo foi para o Rio de Janeiro, onde nasceu o impulso para o ministério que o fez desistir do seu maior sonho até então - ser médico - e tornar-se conhecido como R.R. Soares.

No dia 1º de novembro de 1977, o sonho de menino virou realidade: iniciava-se, pela Rede Tupi, no Rio e em São Paulo, um dos maiores projetos de evangelização via TV já registrados no País. Três anos depois, em 1980, o missionário fundou a Igreja Internacional da Graça de Deus, hoje com mais de 2 mil templos no Brasil e no exterior, emissoras de rádio AM e FM, uma editora (a Graça Editorial), uma gravadora (a Graça Music) e uma emissora de TV, a RIT, inaugurada em 2002.

A conversa exclusiva de R.R. Soares com a equipe de jornalistas da Revista Comunhão, onde o missionário fala sobre sua história, planos e realizações, e sobre como avalia a atuação dos evangélicos brasileiros hoje, é o que você vai ler nas páginas a seguir.

O senhor é capixaba. Como se sente em ser natural de um Estado com o segundo maior percentual de evangélicos do País?
R.R. Soares: Eu fico feliz em saber que o Espírito Santo está se convertendo. Quando eu era menino, nós éramos tão poucos e tão discriminados, e agora quase todos os capixabas estão gritando que Jesus é o Senhor, e isso é simplesmente maravilhoso, é coisa feita pelo Senhor Deus, obra do Espírito Santo.

E o momento da igreja evangélica no País? O senhor acredita que os evangélicos estejam "fazendo a diferença" para a sociedade?
Os evangélicos têm que tomar juízo - porque breve nós seremos maioria - para não serem iguais aos que hoje são maioria e que deram péssimo testemunho da fé em Cristo. Nós temos essa obrigação, porque conhecemos a Palavra de Deus, sabemos da obra do Espírito Santo e herdamos da geração anterior de evangélicos o bom nome de cristãos. Devemos também passar para quem virá que ser cristão é ser parecido com Cristo, ser temente a Deus, respeitador da Palavra e santo em todos os seus procedimentos.

O senhor recebe muitas perguntas por meio do site e no programa, com dúvidas sobre convivência familiar, vida sentimental e sexual. Por que ainda é complicado para as pessoas entenderem as orientações de Deus a esse respeito?
As pessoas têm pouca informação da Palavra de Deus; têm mais de religiosos. As igrejas pecam nesse particular. Cada uma defende seus princípios, regras, credos e esquecem de pregar somente a Palavra do Senhor Deus. Por outro lado, há um grande assalto de Satanás no meio da humanidade, levando os jovens às drogas, à prostituição, e isso está se refletindo em toda a sociedade.

Por que tantos pastores ainda têm dificuldade para falar destes assuntos?
Aí eu não sei, só sei do meu ministério. Tudo que Deus põe na minha boca eu procuro entregar às pessoas. Às vezes, pode até ofender alguns, que acham que um homem de Deus não deveria falar de tais coisas, mas se está na Palavra, se é assunto que traz dúvida aos corações, nós temos a obrigação de sanar essas dúvidas com orientação bíblica. Nós temos que voltar à Bíblia Sagrada, pregar o que a Bíblia diz. Esquecer os conselhos dos homens, e não ter vergonha nem medo de falar a verdade. Esses casamentos que não duram, iniciação sexual precoce, abuso infantil, pedofilia, essas coisas todas, são porque as pessoas não aprendem a respeitar a Palavra de Deus.

Em entrevista a um veículo nacional (revista Veja nº 1822), o senhor contava sobre o desejo de possuir um canal de televisão para a divulgação da Palavra. Este sonho é contemplado pela RIT ou está distante? O que falta para concretizá-lo?
A RIT hoje é a maior bênção no Brasil, é um dos canais mais assistidos no País. Nas minhas cruzadas, que variam de cinco a 200 mil pessoas, em alguns lugares até mais, de 70 a 90% dizem que assistem à RIT - só o Ibope é que não descobriu isso. O senhor Carlos Montenegro (do Ibope) está completamente atrasado. Ele precisa se atualizar. A RIT hoje é um dos canais mais assistidos do Brasil e é bênção. É a TV que faz a diferença. Eu não fui posto como fiscal de ninguém, cada um dá conta de si mesmo. Eu só tenho a dizer que na RIT nós estamos nos esforçando, com poucos recursos, para fazer uma programação sadia, e acho que temos conseguido. E faremos melhor ainda.

Por que o programa, que também contempla jornal e revista, chama-se "Show da Fé"? Qual seu maior propósito?
A fé dá um show: ela salva o pecador, liberta o drogado, cura os enfermos, põe a pessoa a servir a Deus. Não existe show mais lindo do que este!

Em que é investido o dinheiro arrecadado dos que se tornam associados do programa?
É só você perguntar à Bandeirantes, à RedeTV! e aos outros. E se você for a um canal de TV para pôr um programa no ar, você vai ver onde é que é investido. E nós estamos orando para Deus levantar mais, porque temos mais a fazer ainda.


O que o senhor acha dos crentes que passam a se alimentar exclusivamente do conteúdo que acompanham pela TV?
Eu não tenho nada contra a pessoa que assiste ao programa todo dia e se alimenta. Se na minha casa a comida for fraca, pode ter certeza de que eu vou procurar o restaurante da esquina.

O senhor orienta o seu rebanho virtual a procurar uma igreja evangélica, congregar e participar das atividades?
Eu sempre mando. Não basta só a TV; tem que ir à casa de Deus, se filiar, servir a Deus, estar debaixo de uma autoridade, e naquela onde você sente que Deus quer que você esteja.

A imprensa secular o aponta como um homem que "ensina a ganhar dinheiro". Por que tantas pessoas acham que seja errado ganhar dinheiro?
Mas eles também apontam que eu sou um homem que ensina a pessoa a deixar a prostituição, o homossexualismo, as drogas, o pecado, a desonestidade. A Bíblia Sagrada, ela é completa. Tem uma mensagem que serve para o homem em todos os sentidos. Ela foi colocada para nos trazer a Deus, e quem anda com Deus está bem em qualquer situação.

O senhor é criticado pelo mundo secular por "fazer uma interpretação reacionária da Bíblia". Acredita que vale a pregação de um "evangelho light" para conquistar fiéis?
Não. O termo "reacionário" foi usado pelo editor da Veja, quando eu falei que os homossexuais não herdariam o reino de Deus. Então, ele colocou isso lá. Mas nunca ouvi outra pessoa falar isso, não, foi só ele... No entanto, eu prefiro ser reacionário, uma pessoa agarrada ao passado, ao passado de Deus, daquilo que Deus declarou, do que ser um "modernista", que está contra a Palavra de Deus e que dará conta da adulteração da Sua Palavra.

O senhor está há mais de 30 anos na TV. Quais foram as principais mudanças que aconteceram neste período neste meio de comunicação?
Eu acho que nós demos uma ajudazinha para essa explosão do Evangelho. Quando eu comecei, nós éramos 2,3% da população e hoje passamos de 30%. Em alguns lugares, como dizem, no ES, passou da metade. E glória a Deus, que, se Ele quiser, nós vamos continuar dando essa ajudazinha. Mas tudo isso é obra do Espírito Santo, não tem homem que possa reclamar para si a paternidade dessa explosão, que chamam avivamento, despertamento, e que eu chamo de obra de Deus.

 

Guilherme de Pádua

entrevista-guilherme_2

Os extremos retratam bem a trajetória de vida do entrevistado desta edição de Comunhão. A simples menção de seu nome desperta os mais variados sentimentos - quase nunca, porém, a indiferença. Marcado pelo passado conturbado que viveu, Guilherme de Pádua afirma ter encontrado em Cristo uma nova vida e motivação. Longe das câmeras de TV, que em 1992, num curto espaço de tempo, o projetaram nacionalmente como galã na novela de maior audiência do país, ele hoje é obreiro da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), onde congrega desde 2001. Seus conhecimentos na área da informática o levaram à Gerência de Tecnologia da igreja. Desenvolvedor web, cursando Ciência da Computação, é ele o responsável pelo portal lagoinha.com, entre outros trabalhos que dão suporte tecnológico às atividades da igreja e à expansão da pregação do Evangelho utilizando multimídia. A experiência adquirida o credencia a estar em Vitória no próximo dia 04 de julho, a convite da revista Comunhão, para ministrar no seminário "Multimídia - Os Recursos Audiovisuais e a Internet a Serviço da Igreja" promovido pela Next Editorial. Confira, a seguir, a conversa exclusiva que ele teve com a equipe de jornalistas da publicação.

Em um curto espaço de tempo, você passou de galã a vilão. Quem é Guilherme de Pádua hoje?
Guilherme: "Uma nova criatura em Cristo Jesus". "Eis que tudo se fez novo". "As coisas velhas se passaram" - estou citando algumas das palavras da Bíblia que me vêm à mente. Hoje sou uma pessoa comum, que ama poder participar da obra de Deus... Sou alguém que, cada vez mais, vive no "universo" da igreja e que, cada vez menos, convive com os "outros universos". Sou grato a Deus por ter podido cumprir minha pena e ter a chance de mostrar que uma vida pode ser mudada e reconstruída. Sou hoje uma pessoa que, com todas as forças, tenta fazer a sua parte. Mais do que isso, sou alguém que ama ver outras pessoas acertarem os passos, corrigirem seus erros (se converterem aos caminhos de Deus)... Como se, cada vez que isso ocorre, estivesse ocorrendo comigo novamente. Minha vida hoje é isso: ajudar outros a reencontrarem o caminho certo: Jesus Cristo e o que ele ensinou. Parece até parágrafo decorado, não é? Mas o fato é que a minha vida hoje se resume totalmente à igreja.

Como, quando e por que se deu a sua conversão? Você pode falar um pouco a respeito de como foi essa experiência?
Minha conversão se deu no cárcere, mas continua ocorrendo, a cada dia, em busca de dar novos passos em direção ao que Jesus ensinou. Na prática, minha conversão se deu através do amor que recebi dos cristãos... "o amor constrange" e ao receber tamanho amor, ao contrário do ódio que recebia da maioria das pessoas, percebi que havia algo diferente, que eu não conhecia, nesse "povo de Deus". Acabei sendo contagiado por esse amor e quis ser igual, quis sentir o mesmo amor dentro de mim, quis fazer parte desse povo. No começo, foi porque eu não tinha outra opção, ninguém mais me queria! Mas "a fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus". Hoje sou apaixonado por Jesus e por este povo evangélico, que conseguiu ver esperança onde ninguém mais via!

Qual você acredita que seja o propósito de Deus para você, para sua vida?
Não sei, mas, "eis-me aqui, Senhor"! Quando eu me converti, muita gente dizia: "Seu testemunho vai ajudar outros..." e eu cheguei a acreditar nisso. Mas, um dia, percebi algo que, na verdade, me doeu muito: que o mais significativo na minha trajetória cristã era o simples fato de "colocar à prova o coração dos que se dizem cristãos". Deixe-me explicar: aprendemos que devemos "amar nossos inimigos", "orar por aqueles que nos perseguem" e "desejar bem a quem nos deseja mal". Isto é uma tarefa quase impossível, não é mesmo? Em Mateus, de 5:43 em diante, Jesus ensina que amar quem nos ama qualquer um consegue. Bom, o fato é que eu percebi que quando eu sou mencionado no meio evangélico, ou quando vou a uma igreja dar testemunho, sempre que a notícia "corre" os corações são provados. São testadas as capacidades de cumprir o "estive preso e fostes me ver", o "amai os vossos inimigos", o "não julgueis", o "se vós não perdoardes aos homens as suas faltas Meu Pai não perdoará as vossas" e tantas outras provas pelas quais o verdadeiro cristão passa. Foi muito duro, a princípio, ver que meu testemunho não era nada perto dessas outras questões, pois fiquei me sentindo meio inútil, como se fosse "uma coisa pra testar o coração dos cristãos". Mas como estou com Jesus e "não abro"... "Eis-me aqui, Senhor". Não sou mais eu quem vive, mas Cristo vive em mim, então que Ele resolva o que deve fazer comigo... e amém ...e graças a Deus ...e aleluia!

Como é a sua prática cristã cotidiana? Com que freqüência você lê e medita na Palavra? Com que freqüência ora?
Oro o tempo todo! Mas, para mim, isso é fácil, pois as pessoas sempre se lembram de orar quando passam por dificuldades... E eu estou sempre enfrentando dificuldades, então estou sempre orando, falando com o Senhor quando ando pela rua, dirijo, trabalho etc. Por outro lado, preciso ler mais a Bíblia, nunca é demais se alimentar da Palavra de Deus. Meu sonho é um dia me tornar pastor, mas ainda não tenho tido tempo de me dedicar, pois "espero o tempo de Deus". Para realizar este sonho, terei que ler muito mais a Palavra do que tenho lido hoje em dia.

E aos cultos, você vai regularmente?
Eu moro na igreja (brincadeira)... mas minha esposa até sugeriu trazermos um colchonete para cá. Viu como conjuguei o verbo? "Trazermos"? Isto significa que não vou à igreja, estou na igreja! Atualmente, freqüento muitos cultos. Se "a fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de Deus", estou com muita fé, porque tenho "ouvido muito da Palavra.

Como você alcançou o ministério multimídia da Lagoinha? Como se preparou para exercê-lo?
Sou programador web, trabalho com computadores há muito tempo, tive contato com várias tecnologias e uma coisa puxa a outra. Hoje ajudo a cuidar desse universo de tecnologia na igreja. Mas foi bem aos poucos. E, é claro, sou apenas um em meio a uma equipe dedicada e competente. Tem muita gente fera em muita coisa na nossa igreja, graças a Deus!

O que pensa desse trabalho, que importância atribui a ele?
Sem querer ser muito espiritual, vejo mesmo como a Bíblia diz: cada parte do corpo tem uma função, não sendo uma maior do que a outra, não podendo uma viver sem a outra. Vejo tudo o que fazemos como parte do todo e é bom não estar só, fazer parte do "projeto de Deus". Mais especificamente, nosso trabalho com tecnologia busca facilitar a adoração ao Senhor. Por exemplo, quando alguém vai a uma igreja e todos cantam uma música que ele ou ela não conhece. Esta pessoa fica meio sem graça e isso acaba atrapalhando que ela faça o que foi fazer: conversar com Deus. Nosso trabalho é tentar deixar as pessoas mais à vontade, entende? Então, colocamos a letra da música na frente dela! Claro que a tecnologia trabalha com outros universos além da celebração, mas, em geral, sempre estamos ajudando alguém a fazer algo. Melhorando uma reunião, uma comunicação à distância etc.

Você está prestes a vir a Vitória para ministrar um seminário sobre esse tema - a tecnologia a serviço do Evangelho. Por que aceitou o convite da revista Comunhão para participar? Qual sua expectativa com relação ao evento?
Temos um lema em nossa igreja, que vem muito da postura do pastor Márcio: "não podemos perder a oportunidade de abençoar, ajudar a obra de Deus, onde quer que ela esteja". Sinto-me muito honrado, mesmo, em poder contribuir um pouquinho com outros que fazem a obra de Deus, pois foi ela que me resgatou das trevas! Mas, quanto ao evento, pretendo ajudar outras igrejas a não darem tantas "cabeçadas" quantas tivemos que dar. Passar o "pulo do gato" daquilo que pudermos... e vamos juntos saquear o inferno!!!
Ah! Esqueci de dizer: estou indo mesmo é para aprender com os "feras" que vão ministrar lá, mas não conte isso a ninguém...

Você tem buscado ter uma vida bastante reservada. Você se considera preparado para lidar novamente com o público? Como fará para que sua mensagem se sobreponha à sua fama?
Eu não compreendo mais esse negócio de "fama". Vivo em um meio onde sou tão comum! Uma pessoa comum no meio de uma multidão que busca a Deus, sabe? No nosso meio, famoso é Jesus Cristo, aleluia! Enfim, esta "coisa" de fama não faz parte da minha vida. Costumo dizer que conheci a fama e o inverso da fama. Hoje, minha cabeça não está ligada a essas coisas. Quanto a lidar com o público, não pretendo e nem posso fazer isso no universo do entretenimento. Isto, definitivamente, acabou para mim. Mas em eventos evangélicos, é comum pessoas darem testemunhos do que Deus fez em suas vidas - e Deus tem feito muito na minha! - ou transmitirem conhecimentos específicos, como é o caso neste congresso.

Gostaria de deixar um recado aos leitores?
Deus tem feito muitos milagres em minha vida. Se tem feito maravilhas na minha história, que é tão complicada, o que não fará na sua? A palavra impossível não existe no dicionário de Deus! "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele comigo", disse Jesus. "Aquele que abrir...". Existe uma condição que, se atendida, abre uma porta nos céus e Deus derramará bênçãos sem medida em sua vida!