Marília de Camargo

"Feridos em nome de Deus"
O livro da jornalista Marília de Camargo César investiga as raízes do abuso espiritual.
Ela queria ser psiquiatra, mas Deus tinha outros planos para sua vida. Questionadora, curiosa, o gosto pela leitura e a grande facilidade para escrever, aliados à permanente vontade de entender a complexidade dos atos e fatos da existência humana, acabaram levando-a ao Jornalismo, onde fez uma brilhante carreira - após anos de serviços prestados ao jornal Gazeta Mercantil, desde 2000 ela integra a equipe do jornal econômico Valor, onde hoje é editora de suplementos especiais.
Os traços de sua personalidade e a escolha profissional lhe forneceram um caminho natural para enfrentar uma das situações mais difíceis que já viveu: após uma década congregando em uma igreja que parecia perfeita, ela testemunhou a repentina desagregação daquela comunidade evangélica e o linchamento moral de seu pastor. Atônita, ouviu cada irmão, buscando compreender como, da noite para o dia, tamanha tragédia se abatera sobre aquele grupo. Sua busca resultou no comovente ‘Feridos em Nome de Deus' (Mundo Cristão, 2009), primeiro livro de Marília de Camargo César.
Na obra, lançada em junho, a jornalista, membro da Igreja Batista de Água Branca, do pastor Ed René Kivitz, aborda um fenômeno cada vez mais freqüente nas igrejas atuais, que ela conceituou como ‘abuso espiritual' - situações em que líderes e liderados se envolvem sem perceber e que resultam em grande destruição emocional, moral e, por vezes, até mesmo material. Marília reuniu relatos reais de pessoas que tiveram suas vidas vitimadas por abuso espiritual - como abusados ou como abusadores - e, com a ajuda de renomados teólogos, pastores e outros especialistas, desvenda as raízes desse problema, que pode transformar a igreja de hospital em câmara de torturas. Acompanhe.
Seu livro esclarece o conceito de 'abuso espiritual' e ensina aos leitores como perceber se estão envolvidos nesse tipo de situação. Por que você escolheu esse tema?
Estava em busca de respostas. Fui membro de uma igreja durante dez anos, uma igreja interdenominacional, avivada, e ali construí muitas amizades e relacionamentos. De um dia para o outro, surgiram denúncias de abuso de autoridade contra um dos pastores. Muitos que andavam bem próximos dele passaram a acusá-lo de manipulação, abuso financeiro e daquilo que denominei abuso espiritual. No começo ficamos atônitos, sem saber o que estava acontecendo, as razões daquela divisão. Então, o instinto de repórter falou mais alto e eu fui investigar o que tinha dado errado. O livro nasceu assim.
Quais são as formas e as causas mais comuns de abuso espiritual?
O abuso financeiro é o mais óbvio - o líder usa a Bíblia para legitimar o autofavorecimento: abençoe o profeta do Senhor e você será abençoado, dizem essas figuras. A ovelha vê aquilo escrito na Bíblia e acredita que terá mesmo recompensa por favorecer um servo do Senhor. O assédio emocional e espiritual muitas vezes é mais sutil. O pastor humilha o fiel diante da congregação, tratando-o como um rebelde insubmisso apenas porque ele ousou questionar um pensamento, e depois, a sós, o pastor diz pra ele que fez isso por "zelo", porque ele precisava aprender a se submeter à autoridade pastoral. Isso ouvi não uma ou duas, mas muitas vezes. O livro relata outras formas sutis de manipulação, todas igualmente devastadoras para quem está do outro lado do púlpito.
No livro, você fala sobre dois cenários, quase opostos, que os evangélicos normalmente encontram: uma igreja e culto tradicionais, "mornos" e com reduzido poder de atração, ou uma igreja e cultos mais emocionais e mais atraentes - onde, no entanto, o rebanho corre um risco maior de atribuir poder demais à figura do pastor. Existiria uma terceira via, mais equilibrada?
Certamente deve haver uma terceira via, e uma quarta e uma quinta. Há igrejas para todos os estilos de pessoas, creio eu. O problema, como escreve Osmar Ludovico em "Meditatio", é quando as pessoas se tornam seletivas, ficam fazendo test drive com igrejas e passam a achar que não existe nenhuma à altura de sua espiritualidade, ficam procurando os defeitos e se tornam, assim, soberbas. Ora, igreja perfeita só quando a Noiva estiver pronta e adornada, ao lado do Noivo, glorificada. Isso é para depois. Aqui, sempre teremos que conviver com os defeitos de nossas comunidades e pastores. Acho que precisamos procurar um ambiente onde nos sintamos bem, onde sejamos estimulados a pensar, a questionar, e onde nossos defeitos combinem melhor com os defeitos da comunidade e da liderança (risos).
De uma forma ou outra, o dinheiro está presente na base da maioria dos conflitos narrados no livro. A que atribui isso?
Muitas pessoas que são abençoadas pelo pastor ou líder querem retribuir com presentes a atenção, o carinho, as orações ministradas. É natural. O problema é quando isso passa dos limites e quando o líder começa a se ver como merecedor desses agrados, passando até a pedi-los - e isso acontece com alguma frequência. Se sou jornalista ou balconista, o presente que poderei dar a meu pastor será talvez um livro, uma camisa. Mas e se eu for um grande empresário, uma celebridade? Vou querer abençoá-lo com um carro, uma casa nova. Isso acontece, na prática, e as igrejas não estão prontas para lidar com esse tipo de situação. Eu sugiro no livro que os estatutos das igrejas contemplem um código de ética que defina um valor para esses presentes, como fazem algumas empresas. Seria um jeito de proteger o próprio pastor de uma situação que pode resultar, eventualmente, em constrangimento.
Você mostra que a necessidade de seguir um líder, com medo da responsabilidade trazida pelo livre arbítrio, fragiliza o crente diante de uma liderança espiritual abusiva. Fale um pouco mais sobre isso.
É muito mais fácil ter um guru, um pastor-consultor para assuntos diversos, que lhe diz sempre o que você tem que fazer, do que gastar tempo de joelhos, lendo a Bíblia, se aquietando - nossa!, como dá trabalho ter que se aquietar diante de Deus, eu diria que é uma das coisas mais difíceis nesta vida louca que levamos hoje. As pessoas adoram respostas prontas, soluções tipo fast food, "liga pro pastor, pergunta se deve ou não deve" e o pastor diz: deve, e você vai lá e faz. Se der errado, a culpa é do pastor, claro, e não da sua própria imaturidade. Isso está acontecendo demais nas igrejas, o rebanho imaturo perguntando ao pastor sobre os detalhes de suas resoluções cotidianas e os pastores adorando assumir esse papel de manda-chuva. Isso é um terreno fértil para a ocorrência de abuso, infelizmente.
Entre os aspectos que podem facilitar que o crente seja vítima do abuso espiritual você aponta a educação autoritária. No entanto, há décadas que a educação vem-se liberalizando, ao ponto de, hoje, muitos atribuírem alguns dos graves problemas que a sociedade vem enfrentando à falta de limites dados pelos pais às crianças e jovens - ou seja, uma postura cria abusados e a outra, abusadores. Como ultrapassar essas duas posições?
Tenho duas filhas pequenas e entendo que amor e firmeza trazem muita segurança para a vida delas; muito amor e muita firmeza. Quando se tem convicções, é necessário transmiti-las aos filhos, mas com muito amor. Não significa omissão e indisciplina. Minhas filhas sabem, pelo meu tom de voz, quando "pisaram na bola", e em alguns momentos, tirar algo que seja importante para elas é uma lição mais dura que uma "varada". A educação autoritária, violenta, que não permite questionamento, onde a criança tem medo de se expressar, ajuda, sim, a criar indivíduos mais tolerantes ao abuso na vida adulta. Esta é a opinião dos profissionais da mente e um traço comum nas histórias que narro no livro.
Você acha que o propósito para o qual escreveu o livro foi ou está sendo alcançado?
Creio que os resultados superam todas as expectativas, muitas pessoas escrevem contando como puderam fazer uma autoanálise depois de ler o livro e entender onde elas também falharam no relacionamento com o líder. Entendem que foram ingênuas, que transferiram responsabilidades ou que simplesmente se meteram com as pessoas erradas, o que acontece. A maioria dos que escrevem no blog do livro (www.feridosemnomededeus.com.br) afirma ter sido ajudada pelos relatos e análises, e isso é uma grande recompensa para o meu trabalho. Agradeço demais a Deus por estar usando essa obra para curar tantos corações partidos e restabelecer a fé de muitos.
Qual a mensagem que gostaria de deixar para os leitores de Comunhão?
Sempre costumo enfatizar que só existe um Pastor perfeito, aquele que sofre conosco quando estamos sofrendo as dores e as feridas feitas por pastores imperfeitos - todos os demais. Nada no mundo pode nos separar desse amor. Sei que cada um tem um tempo para recuperar-se das feridas causadas pela igreja, pelo legalismo, pelo farisaísmo. Mas oro para que as pessoas não percam o tempo certo de voltar aos braços do Senhor. Agradeço a revista pelo interesse no livro e que vocês possam sempre ajudar a divulgar o ministério da reconciliação, que é dado a todos os cristãos.
Flordelis

"Existem dois tipos de mãe: a biológica e a do coração. Mas para mim, mãe é aquela que se doa. Esse é o sentido do amor verdadeiro."
Uma jovem carioca que, com poucos recursos, se dedicou a cuidar de crianças e adolescentes em situação de risco social. Essa é a história da professora Flordelis, mãe de 50 filhos, quatro biológicos e 46 adotivos, que chamou a atenção do Brasil. A missionária enfrentou muitas privações e obstáculos, teve contato com chefes do tráfico de drogas e foi perseguida pela polícia ao defender os filhos. Agora, é a primeira evangélica, no mundo, a ter a sua história contada em filme. O documentário "Flordelis - Basta Uma Palavra Para Mudar", lançado no mês de outubro, é uma coletânea de depoimentos emocionantes dessa trajetória de amor e fé. No elenco, a missionária encena o seu próprio papel e mais de 20 atores renomados da dramaturgia brasileira dão vida aos demais personagens. Em entrevista exclusiva para a Revista Comunhão, Flordelis conta como teve forças para seguir em frente nos momentos mais difíceis de sua missão e como é, atualmente, a sua vida em família.
Comunhão: Como foi a sua infância?
Flordelis: Nasci e me criei em uma favela chamada Jacarezinho, no subúrbio do Rio de Janeiro. Desde pequena, tive contato com a triste realidade das crianças que são criadas pela vida, filhas de pais que precisavam trabalhar fora e não tinham tempo de dar os devidos cuidados à família. Essas crianças ficavam largadas pelos becos onde moravam e tinham contato com todos os tipos de violência.
O que te despertou a realizar um trabalho com crianças dependentes de drogas e vítimas da violência urbana?
Percebi que poderia agregar mais ao evangelismo, ampliando a minha missão para alcançar muitas pessoas que precisavam de amparo e cuidados especiais. Por causa disso criei o "Evangelismo da Madrugada", que faço todas as sextas-feiras. Saio de casa à meia-noite e me dirijo aos bailes funks e a outros locais da cidade para falar de Jesus.
Como você iniciou a missão?
Depois do Carnaval do ano de 1994, aconteceu uma chacina na Central do Brasil provocada por um grupo de extermínio. Muitas crianças morreram e 37 escaparam e me pediram ajuda. Na época, era professora e já tinha acolhido cinco adolescentes que tinham saído do mundo do tráfico. Mesmo assim, não pensei duas vezes, recebi todos eles em minha humilde casa. Mas não foi fácil. Cheguei a ter que conversar com chefes do tráfico de drogas e fui perseguida pela polícia.
A Bíblia diz: "Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele" (Pv. 22:6). Como é ter a responsabilidade de cuidar de tantos filhos em um mundo tão corrompido como o dos dias atuais? Apesar da triste história de vida dos meus filhos, atualmente é bem mais fácil lidar com eles. Passamos muitos momentos difíceis juntos e isso fortaleceu a nossa família. Eles não são perfeitos, mas cumprem o mandamento do Senhor, me honram e obedecem em tudo, evitando qualquer tipo de falha para não me magoar e também para não desagradar a Deus.
O que te levou acreditar que daria conta de cuidar de todos os seus filhos, adotivos e biológicos? Não escolhi ser mãe de tantos filhos, simplesmente aconteceu! Quando percebi estavam todos eles na minha frente, dependentes de mim. Não foi planejado. Certa vez, a psicóloga do juizado de menores me disse: "Flor, não foi você que os adotou, eles que te adotaram". Concordo com ela.
Há amor para todos eles em seu coração?
Com certeza! Eles são a razão da minha vida e não consigo me imaginar sem a companhia de cada um deles. Porém, não deixo de corrigi-los quando é necessário. Conheço a manha de cada um, do mais novo ao mais velho.
Você acredita que o que aconteceu na sua vida foi um propósito de Deus para superar os traumas do passado?
Sim. Só posso entender o que aconteceu em minha vida como um propósito de Deus. Foi tudo muito rápido. Vieram 14 bebês de uma vez e outras crianças ainda muito pequenas e os demais já eram jovens e adolescentes. O passado já superado vem na lembrança quando sento com os meus filhos e conto as suas histórias de vida. Todos eles têm consciência de suas origens e, nos dias de hoje, servem de exemplo de superação para os amigos.
Alguma vez você chegou a pensar que fosse ser derrotada nessa missão? Dizer que nunca me senti fraca seria uma mentira, mas derrotada jamais! Sempre achei que tudo ia dar certo, porque Deus estava no comando. Sabia que não iria perder os meus filhos.
Para você, o que é ser mãe? Qual o sentido do amor verdadeiro? Existem dois tipos de mãe: a biológica e a do coração. Mas para mim, mãe é aquela que se doa. Esse é o sentido do amor verdadeiro.
Deus, por meio de sua Palavra, nos deixou um conselho: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." (Mt. 22:39). Como é possível se doar a alguém sem sequer conhecê-lo e ter garantias de receber algo em troca? Esse foi o grande problema que enfrentei com a minha família, pois meus parentes não entendiam o amor incondicional que me levava a cuidar das crianças. Eles achavam que eu estava jogando fora a minha juventude e que todo o meu esforço não daria em nada. Porém, não esmoreci. Cada um dos meus filhos precisava apenas de uma palavra de amor. Dei essa oportunidade a eles.
Segundo a Palavra, "a mulher sábia edifica o seu lar, mas a insensata o derruba com as próprias mãos" (Pv. 14:1). Como é o seu relacionamento com os seus filhos e esposo? Encontro em Deus sabedoria para conduzir o meu lar da melhor forma possível e, em casa, todos colaboram cumprindo suas tarefas para que tudo fique em harmonia, como deve ser um lar firmado no Senhor.
Você enfrentou muitas dificuldades para continuar no propósito de cuidar dos seus filhos. De onde você tirou forças e determinação para vencer tantos empecilhos? Na fé em Deus e no relacionamento com o meu esposo, o pastor Anderson do Carmo, que sempre me apoiou.
De início, você não tinha recursos financeiros para cuidar dos seus filhos. Vocês chegaram a passar privações? Sim, passamos por muitas privações. Algumas vezes não sabíamos nem o que teríamos para comer no dia seguinte, mas Deus sempre providenciava algo. Também encontrei pessoas como Herbert de Souza, o Betinho, que me apoiaram e ajudaram.
Você ainda acolhe crianças em situação de risco em sua casa? A minha casa não comporta, mas continuo indo às favelas para atender jovens, adolescentes e crianças e, também, sou muito procurada por eles. Atualmente, tenho o Instituto Flordelis de Apoio ao Menor, onde essas crianças são ocupadas durante o dia com aulas de música, artesanato, entre outras atividades.
Qual recompensa você espera ter por esse trabalho? Espero ver os meus filhos continuando a minha história e incentivar outras pessoas a se levantem para fazer algo a mais. Para ajudarmos ao próximo não precisamos ser ricos de bens materiais. O que temos a fazer é parar de criticar e reclamar do mundo, e agir. Precisamos fazer a nossa parte.
Em um país de tantos exemplos negativos, corrupção e violência, você espera ser um exemplo de paz e amor para aos brasileiros? Espero somente fazer a minha parte e procurar ajudar a quem não teve uma oportunidade na vida e acaba sendo vitima da violência que nos rodeia.
Com o seu exemplo, você espera incentivar outras pessoas a serem solidárias? Sim, com certeza, pois ser mãe é a melhor coisa do mundo!
Você acredita que atitudes como a sua podem ajudar a minimizar a desigualdade social no País? Acredito que somente com um conjunto de ações vindas dos governantes e, também, dos cidadãos brasileiros a desigualdade social no País poderá ser reduzida.
De onde surgiu a ideia do filme "Flordelis - Basta Uma Palavra Para Mudar"? O produtor, até então editor de moda, Marco Antônio Ferraz assistiu a uma entrevista minha em um programa de TV e teve a ideia de registrar minha história em filme. Achei interessante e aceitei o desfio. O documentário, produzido em preto e branco, traz passagens marcantes da minha vida com meus filhos, partes da difícil luta que enfrentei para chegar até aqui.
Qual mensagem você espera transmitir com o filme? O filme "Flordelis" também será exibido fora do País. Com isso, espero plantar a semente do otimismo em muitos corações. Se as pessoas acreditaram, até o fim, no que fazem com certeza dará certo. Sou um exemplo disso, jamais desisti e passaria por tudo novamente. O documentário não é uma vitória só minha, mas de todo o povo de Deus. Sou a primeira evangélica com uma história no cinema mundial. Essa produção é uma fonte de evangelismo e toda a sua trilha sonora é gospel.
O que você deixa como conselho àquelas pessoas que estão enfrentando adversidades na vida sem poder ver a saída de seus problemas? Creia e se apegue em Jesus, pois Ele é a saída para todos os problemas. Mas faça a sua parte também, colabore para a vitória.


Na Convenção Estadual realizada no dia 18 último era evidente a presença de políticos capixabas. O senhor considera isso bom ou ruim?










